Fernanda Beatriz – Diretora de Hotel

Dirhotel – A sua vida dava um filme?

Fernanda Beatriz – Eu acho que dava. Se calhar tinha de se dividir em duas partes, primeiro porque vivemos muitos anos e depois porque acontece muita coisa, tanto na vida pessoal como na profissional, umas melhores do que outras, mas é assim a vida.

Dirhotel – Como é que foi parar à hotelaria?

F.B. – Já foi há uns anitos… eu tirei um curso na Escola Industrial e Comercial do Montijo. Na altura faziam-se esses cursos, o comercial e o industrial que nos preparavam imenso para a vida profissional. Depois de acabar comecei a pensar no que é que iria fazer. Este curso estava muito vocacionado para a parte de escritórios e administrativa e eu não me via a trabalhar num sítio onde entrasse às 9h e saísse às 6h. Quando vi um anúncio da escola de hotelaria, na altura, de Alexandre Almeida, a procurar jovens para integrar estas profissões de receção, eu achei que era capaz de ser giro. O meu pai não gostou muito da ideia porque achava o ambiente muito estranho e achava que eu devia ir trabalhar para a então Caixa de Previdência, que dava uma sensação de segurança, porque se trabalhava para o Estado, mas acabei por inscrever-me na Escola de Hotelaria porque me revia naquela dinâmica de contacto com as pessoas. Apanhava o barco às 6h15 da manhã para estar na escola às 8h e era a primeira a chegar. O curso comercial dava-nos uma grande preparação pelo que fiz o curso de receção com muita facilidade e terminei com uma nota bastante boa que dava acesso, se quiséssemos, a uma bolsa de estudo do Instituto de Formação Turística no estrangeiro, mas como na altura não era muito bem visto uma mulher ir para o estrangeiro, fiquei por aqui e fui fazer um estágio de 3 meses no Grande Hotel do Monte Estoril.

Dirhotel – E como foi o estágio?

F.B. – Fui uma estagiária muito dedicada. Toda a gente estranhava porque é que eu, sendo da receção, queria aprender tudo sobre o bar, o restaurante e das outras secções. Quis aprender tudo e até pedi ao diretor do hotel que me deixasse fazer o turno da meia-noite às 8h porque eu queria passar por todos os turnos, mas ele não me deixou porque dizia que as mulheres não podiam trabalhar depois da meia-noite. Fui convidada a ficar nesse hotel, mas eu achava que não correspondia às minhas expectativas. Na altura o hotel tinha receção e portaria separadas e eu verificava que tudo quanto eram reclamações vinham ter comigo à receção e tudo quanto era venda de tours e dinheiro ia para a portaria, onde se fazia muito dinheiro em gorjetas e eu achava que era injusto e acabei por recusar o convite para ficar e fui para casa até que surgiu o Aparthotel Vale do Sol, no Monte Estoril. Fui fazer a entrevista e testes, juntamente com outros candidatos e acabei por ficar a trabalhar na receção do hotel que juntava também a portaria, por isso, pela primeira vez tinha as duas funções o que queria dizer que, além das reclamações também tinha acesso ao dinheiro que se ganhava na portaria.
Lembro-me que o primeiro ordenado que recebi, em 1971, eram 400 escudos, mas só de aluguer do quarto pagava 200 o que me deixava com pouco. Nessa altura já tinha a carteira profissional de ajudante de receção que era dada logo que terminava o curso, mas havia uns cursos de aperfeiçoamento na Escola de Hotelaria no Estoril que nós frequentávamos para podermos subir na carreira. Fiz os cursos e cheguei a chefe de receção.
Depois do 25 de abril, já havia o curso de gestores e eu fui fazer e isso foi muito importante.

Dirhotel – E depois disso?

F.B. – Na sequência desse curso tive uma bolsa de estudo dada pelo Instituto de Formação Turística em Cornell nos Estados Unidos. Fui fazer o Summer Course. Foi das melhores experiências que tive na vida e que aproveitei para aplicar na minha vida. Foi uma experiência memorável, em 1976. Fomos 20 pessoas das várias escolas do país, das quais eu era a única mulher. Aliás nessa altura éramos poucas mulheres na profissão. Lembro-me que pela mesma altura, num jantar para porteiros eu era a única mulher entre 300 e o meu colega que ficou sentado à minha direita ficou muito contente porque foi o primeiro homem a ser servido. Gostei muito de ir a Nova Iorque e a viagem foi muito divertida porque o curso tinha gente de todo o mundo…
Foi uma experiência interessantíssima, com professores de altíssimo nível. Fizemos diversas visitas a hotéis, fomos ver as Niagara Falls. Fomos ver o Sheraton em Toronto, no Canadá. Foi a primeira vez que fomos a uma torre, na altura era a maior do mundo, o restaurante giratório… enfim vimos coisas que nós não tínhamos noção em Portugal. Tomámos contacto com uma realidade hoteleira e não só, completamente diferente e muito mais moderna do que a nossa. Em Portugal havia poucos hotéis e coisas que eram banais nos Estados Unidos, como por exemplo, ter televisor no quarto, cá era um luxo.

Dirhotel – Esse foi o melhor momento da sua vida profissional?

F.B. – Um dos melhores. Acredito que este foi o melhor ou o mais marcante na vida de estudante. Na parte de aprendizagem nos diversos aspetos, no marketing, na cozinha, porque nós ainda éramos muito arcaicos. As nossas cozinhas nessa altura ainda tinham serradura no chão para ninguém escorregar. O pessoal era fraquíssimo em termos de relação interpessoal, e esse foi sempre o problema da hotelaria.

Dirhotel – Então quais seriam os momentos em termos profissionais de que guarda melhores memórias?

F.B. – Esses seriam mais tarde, na Aldeia das Açoteias, em termos de experiência. O melhor foi o ingresso na Aldeia das Açoteias porque eu estava no Estoril e o Aparthotel Vale do Sol e a Aldeia das Açoteias eram do mesmo dono. Ao regressar dos Estados Unidos, com outros conhecimentos, fui logo promovida a assistente de direção, no Estoril e, passado pouco tempo, passei a subdiretora. Foi tudo muito rápido e com alguma facilidade porque quando uma pessoa gosta, é curiosa e aprende, naturalmente sobe-se na carreira.Depois fui para a Aldeia das Açoteias como subdiretora, convidada pela empresa. Houve partes que foram difíceis, épocas complicadas com a passagem de dois diretores. No final, a administração acabou por achar que eu era a pessoa indicada para ser a diretora geral, até pelo conhecimento que já tinha da estrutura. Mas a parte que mais gostei foi que o aldeamento, que vinha de um histórico de resultado de exploração negativo, ter passado, no ano em que assumi, para um resultado de 15 mil contos de lucro [cerca de 75 mil euros], coisa que nunca tinha acontecido.

Dirhotel – Como é que isso aconteceu?

F.B. – Trabalhei imenso, lembro-me de momentos muito difíceis. Mas depois o aldeamento dedicou-se à parte de atletismo, desporto, portanto a compensação era o que se fazia ali. Não havia acontecimento que não passasse pelas Açoteias porque era um aldeamento que reunia as características para tudo.

Dirhotel – O que foi para si ganhar o Prémio Carreira da ADHP?

F.B. – Foi um momento feliz pelo qual não esperava. Eu não gosto de falsas modéstias, por isso digo que não tenho dúvida das minhas características, do meu envolvimento na profissão ao longo desta vida: eu fiz parte da associação dos diretores de hotéis, fui sócia fundadora das Lyoness, fui delegada da associação no Algarve e aquela que mais eventos organizou no Algarve, que foi algo que sempre gostei de fazer e que ainda hoje faço, mas não estava à espera. Mas fiquei feliz porque gosto mais quando o reconhecimento é feito por pares, neste caso por colegas diretores de hotéis, mais do que se fosse uma entidade oficial e porque há imensos profissionais que o merecem e este prémio foi instituído há pouco tempo e por isso ainda poucos o receberam.

Dirhotel – O que é que acha que deve mudar ou o que está mal na hotelaria portuguesa?

F.B. – Tenho sempre muita dificuldade em fazer esse tipo de análise. Primeiro tem tudo a ver com a sociedade em que vivemos, tem a ver com o País, muito bonito, mas com problemas estruturais muito complicados e daí que não vejo grandes diferenças nas épocas. Por exemplo, quando se junta a parte imobiliária e a hoteleira, a minha experiência é que não funciona, nem no passado nem agora. Em termos de pessoal é rigorosamente igual agora ou antes, com dificuldade em encontrar pessoal porque exige-se muito para o que se paga. Não é fácil encontrar pessoas para trabalharem na indústria hoteleira, especialmente para os restaurantes e cozinhas porque as pessoas entram cedo para os pequenos-almoços e depois não sabem quando é que saem. Outra coisa que devia mudar e que felizmente já está a acontecer, e nisso a ADHP fez uma grande pressão, é que os diretores de hotel devem acompanhar desde início a construção dos hotéis para prevenirem problemas futuros uma vez que são mais sensíveis às necessidades dos hotéis.

Dirhotel – E o que é que devemos manter?

F.B. – Nós temos uma característica de povo de simpatia, de relação humana fácil, com o atendimento, queremos agradar. Espero que esta parte não mude, mas vai mudar porque as tecnologias e a robótica estão aí na receção e em outros setores. Nós não sabemos onde vamos parar com as tecnologias, mas sabemos, por exemplo, no caso das empregadas de quarto, a tecnologia praticamente não mudou em nada.

Dirhotel – Se lhe fosse dada a oportunidade de voltar, voltava? Já sei que não…

F.B. – Não, não. Mas se fosse um projeto em que pudesse por a minha experiencia e em que pudesse participar e fosse algo em que acreditasse, não tenho dúvida que voltava.